06/11/2013

Acesso ao inacessível


Quando discutimos acessibilidade imediatamente lembramos-nos de inúmeras imagens, as quais a maioria remete a uma pessoa cadeirante, ou alguém com uma bengala para poder se guiar em um espaço desconhecido.
Crédito: Karin Hildebrand Lau/Shutterstock.com)

 Há muita discussão a respeito desse tema, e a resposta para essa discussão talvez se solucione com uma pergunta: Quais são as modificações necessárias para que tenham uma vida mais facilitada?

Para a pessoa que nasceu com deficiência nada é mais normal para ela do que ela mesma. Na realidade, é o resto do mundo que é diferente. Mas a partir do momento que ele sai de seu ambiente familiar ela precisa se adaptar ao outro mundo, ou então estará fadada a ter uma vida limitada devido a diferença na sociedade.

            O fato é que somente agora a sociedade se conscientiza que essas pessoas também possuem direitos como está na Declaração de Direitos Humanos:
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole apresente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação (UNESCO, 1948, p. 3).



ARES BORGHESE (SÉCULO I a.c. OU II d.c.)

Para se contextualizar, vamos retroceder um pouco na história e ver como a pessoa com deficiência era tratada.

 Cerca de dois mil anos atrás, o homem dependia totalmente de seu corpo para realizar trabalhos. Estamos falando da Grécia Antiga. Todos sabemos que a deficiência física não é um caso exclusivo da sociedade contemporânea. Muitas das pessoas que viviam nessa época e possuíam alguma deficiência poderiam sofrer atrocidades impostas por aquela sociedade, eles eram "marginalizados e até mesmo eliminados" (SCHEWINSKY, 2004).
Mesmo os soldados, que eram tidos como o ápice de um corpo perfeito estavam expostos a se tornarem deficientes em combates como a mutilação de membros. Dessa forma acabavam no limbo com os deficientes.
A crença em deuses mitológicos também enfatizava que o normal era ter um corpo belo. Através de esculturas daquele período podemos observar isso.


Com os romanos não era muito diferente. "A eficiência era tida como monstruosidade, fato que legitimava a condenação a morte dos bebês mal formados.” (SÊNECA apud SCHEWINSKY, 2004). 
Naquela época o corpo era visto como algo para o prazer e guerra. (JATOBÁ e FRANCO, 2004).

            Em Roma o sistema era patriarcal, e existiam até leis que protegiam o pai que matasse o filho que fosse deficiente. “A Lei das XII Tábuas, na Roma antiga, autorizava os patriarcas a matar seus filhos defeituosos”. Infelizmente essas barbáries eram cometidas nesse período, mas vale ressaltar que muito do conhecimento daquela época era empírico, por conta disso eles seguiam o que oráculos diziam, que muitas vezes eram sem nexo. Isso causava uma falta de conhecimento e que muitas vezes acabavam por interpretar informações de forma errada.

            

            Na idade média não era diferente, ainda mais quando um alto gral de ignorância por parte do clero, o qual dizia que tais deformidades eram castigos divinos e muitas vezes tais pessoas eram confundidas com “diabos” por conta do corpo que era diferente.


            No filme “O Corcunda de Notre Dame” podemos notar que o preconceito estava intrínseco nas pessoas pois eram ignorantes e desconheciam o diferente. Cenas tocantes como quando criança, Quasímodo foi abandonado na porta da catedral de Notre Dame ou quando o mesmo foi humilhado em praça pública, ajudam a reforçar essa ideia de preconceito que existia desde aquela época.


            Podemos avançar um pouco mais e pular para o capitalismo. Aqui com as ideias fortes de Ford a qual colocavam a linha de produção e o faturamento da empresa em primeiro lugar, o deficiente físico não tinha vez. A ênfase na produção impedia que esses exercessem os trabalho com a mesma destreza que os demais, dessa forma estavam longe de entrarem em fábricas ou de participarem da sociedade.

           


          Felizmente no mundo contemporâneo, todo esse quadro de repúdio a pessoas com deficiências físicas vem mudando.
         
    De alguns anos para cá é que se começou a se problematizar isso. Esse processo vem tomando força, pois cada vez mais são implantadas políticas de inclusão, fazendo com que as pessoas portadoras de deficiência saiam mais e utilizem os espaços públicos que também são de seu direito. A partir do momento que elas saem e mostram ao mundo que existem e que também possuem direitos, provam que realmente há uma demanda de serviços que atendam a esse público.



    A séculos atrás os locais públicos não possuíam acessibilidade, pois como vimos anteriormente, essas pessoas era excluídas da sociedade. Assim, muitos dos lugares atualmente não possuem rampas, pisos táteis, ou mesmo pessoas capacitadas para receber e atender adequadamente pessoas com deficiência.

       Atualmente esse paradigma vem mudando. Centros culturais abertos para o público que  atualmente vem sendo construídos, são extremamente adaptados para essas pessoas, isso por causa de políticas públicas, criação de leis de inclusão e também pela interferência e ação dos gestores museológicos.
            Esse ultimo tem papel fundamental na gestão desses centros. É ele quem define quais serão as tarefas que serão priorizadas. Assim, cabe a este se preocupar com a acessibilidade do lugar, uma vez que o público deficiente deve ser atendido de forma adequada. O fator que muitas vezes acaba atrapalhando para se proporcionar a acessibilidade é o caso de o espaço físico não estar adaptado, uma vez que o gestor depende de recursos para se fazer as modificações adequadas. Sendo o espaço um patrimônio tombado, acaba dificultado mais ainda, pois assim o gestor acaba caindo na seguinte questão: preservar ou acessibilidade? 

            Sabendo disso, cabe ao gestor realizar coisas que estão ao seu alcance.  Proporcionar acessibilidade na exposição também é algo muito importante pois é por causa disso que as pessoas querem ir a esses locais. Pessoas treinadas para o atendimento são de fundamental importância, mas esse tipo de serviço as vezes acaba sendo muito custoso para a instituição. Assim, o gestor deve problematizar e pensar em outros meios para dar acessibilidade, gastando menos recursos da instituição. É claro que, se a instituição dispõe de recursos para tal serviço, é obvio que o gestor deve optar pelo melhor e que abranja uma quantidade maior de pessoas com deficiência. Cegos, surdos, cadeirantes etc.

http://www.rinam.com.br/quemsomos.php
           Pensando nisso, o gestor tem uma série de ferramentas que podem ajudar como sites com informações e empresas que possibilitam uma troca e também a prestação de serviços para que os gestores possam realizar esse trabalho, trazendo a acessibilidade para pessoas com deficiência.

      
        Vale ressaltar também que esse processo não cabe apenas ao gestor, pois esse gerencia os processos dentro desses espaços culturais com apoio de políticas públicas e também com recursos ou do estado ou privados. Ou seja, ele só terá condições de fazer grandes mudanças  caso tenha apoio de outras partes envolvidas nesse processo.
     

                Na aula de Museologia no Mundo Contemporâneo, tivemos a oportunidade de conhecer Anajara Carbonell, uma simpática pessoa a qual realizou uma pesquisa  na Casa de Cultura Mario Quintana a respeito de acessibilidade para pessoas com deficiência física.
     Essa conversa e a apresentação de seu documentário foram de fundamental importância para os alunos de museologia. A problematização do conteúdo foi de extrema importância para que nós, possivelmente futuros gestores de museus, acordássemos e tivéssemos a consciência de que o museu é coisa séria e o acesso ao mesmo também é de fundamental importância.
                  Ela expôs também que coisas que já estão adaptadas para deficientes podem se tornar um transtorno se forem planejadas de forma incorreta. Banheiros, rampas, elevadores, e muitas outras coisas que ela mostra no vídeo em que gravou na Casa de Cultura Mário Quintana servem para frisar isso e mostrar como o papel do gestor é importante e como o atendimento a essas pessoas é delicado, demandando não só da adaptação do espaço físico mas também a capacitação dos colaboradores da Casa de Cultura. 
                 
             Assim, deve-se perceber que essas pessoas estão conquistando seu espaço na idade contemporânea, mais especificamente no século 21. Eles adquiriam voz e estão dispostos a mudar o preconceito e quebrar as barreiras físicas e esteriótipos impostos pela sociedade.
                Em espaços culturais, se faz de fundamental importância o museólogo que esteja preocupado com a acessibilidade e o melhor atendimento para pessoas que precisam.

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