07/11/2013

Harmonia em desarmonia em 1993


Em 1993 houve um disputa de território em Porto Alegre, entre dois grupos fortes de cunho cultural. O Parque Harmonia, situado no centro da cidade foi o motivo do conflito.

Parque Harmonia visto de cima
O filme Harmonia de Jaime Lerner retrata o conflito entre duas manifestações culturais distintas. De um lado, a cultura tradicionalista gaúcha e de outro a cultura carnavalesca. O filme ilustra bem o quadro onde temos a cultura elitista contra a cultura popular.

A proposta dos carnavalescos era de construir um sambódromo no meio do parque, o que poderia favorecer tanto a cultura popular quanto a cultura tradicionalista. Já os tradicionalistas se impuseram com o argumento de que isso destruiria o parque e também ambientalistas eram contra, já que as árvores teriam que ser derrubadas para a construção do tal.

Mas ao decorrer do filme, algumas perguntas acabam sendo formuladas na cabeça do telespectador e algumas críticas implícitas acabam aparecendo no transcorrer do filme. A indagação sobre qual dos costumes deveria prevalecer é o ponto chave. Mas o diretor teve foco nas raízes desses costumes e isso possibilitou que houvesse uma avaliação
Mas essa mesma cultura e tradição serve para a segregação e auto afirmação  dos que a defendem. Tanto carnavalesca quanto tradicionalista.

Ele parte da ideia de procurar quais são as origens do tradicionalismo, desmascarando esses costumes que começaram na década de 40. Segundo os relatos que estão no filme, as vestimentas que hoje são usadas em eventos tradicionais nada mais são que roupas usadas por "caipiras" antes da década de 40. O costume se iniciou com alunos do colégio "Julinho" onde queriam criar uma identidade cultural. Até aquele momento, as pessoas que tinham esses costumes eram ridicularizadas. 
Mas logo isso foi mudando, e essa tradição foi sendo divulgada e aceita pelos "gaúchos".

Mesmo assim, houve essa disseminação dos costumes, e se tornou com algo característico das pessoas que moram no estado Rio Grande do Sul. Atualmente esses costumes são um meio de segregação e de identidade cultural, a qual representa muitos dos gaúchos no Rio Grande do Sul. O chimarrão e o churrasco são símbolos característicos que rementem aos costumes e tradições desse povo. Suas festas e tradições partem de uma mistura de povos nativos com os colonizadores espanhóis e portugueses, e também da migração de europeus nos séculos passados. Esse meio de construção de uma identidade cultural muitas vezes acaba se impondo sobre outras, não dando espaço para que as outras se sobressaiam. Isso pode acarretar consequências graves que veremos em outros posts.

Carnaval
Já os carnavalescos aparecem no filme como uma cultura popular. O diretor mostra um pouco do trabalho e da preocupação dos mesmos nos ensaios e na produção dos carros alegóricos.

No Brasil, essa manifestação cultural passou a ser vista como algo de característica popular e com grande força no estado Rio de Janeiro. Algo com características alegres e que seja de fácil acesso para qualquer um que queira pular o carnaval.

O estado Rio Grande do Sul possui um caráter conservador alto, e isso foi um dos fatores pela repulsa do projeto de construção do sambódromo.

Foto: Luiz Armando Vaz

O Sambódromo acabou não tendo apoio suficiente para que fosse construído no  parque Harmonia. A sua construção foi realizada em uma área periférica da cidade, no Complexo Cultural Porto Seco.
Vale a pena ressaltar que também houve a manifestação de quem costuma passear no parque, pois uma vez que o sambódromo fosse construído, não haveria uma área verde daquele tamanho naquela área nobre da cidade. Aí sim vale ressaltar que, de qual dos dois grupos é direito de utilizar o espaço? Dos tradicionalistas ou dos carnavalescos?
A segregação geralmente acarreta isso, aquele que não me representa não me interessa e se faz de tudo para que o "outro" seja "aniquilado" ou que seus costumes e tradições passem despercebidas.

Infelizmente isso ocorre com frequência por conta de interesses políticos que impedem que as camadas populares possam se expressar ou mesmo usufruir de bens públicos sem que haja um preconceito ou uma certa discriminação.

Quem tem realmente o direito?

Nenhum comentário:

Postar um comentário